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O apocalipse de Ridley Scott não precisa destruir tudo para funcionar
Ridley Scott já levou o público para mundos dominados por criaturas, guerras, impérios, androides e todo tipo de desgraça cinematográfica. Em The Dog Stars, porém, ele decide fazer algo um pouco diferente: olhar para o fim do mundo e perguntar se ainda existe algum motivo para continuar acreditando nas pessoas.
A resposta é surpreendentemente otimista.
Estrelado por Jacob Elordi, Margaret Qualley, Josh Brolin e Guy Pearce, o thriller pós-apocalíptico adapta o romance de Peter Heller e aposta menos na grandiosidade do desastre e mais na sobrevivência cotidiana de quem ficou para trás.
O resultado não reinventa o gênero, mas encontra algo que muitos filmes do tipo parecem esquecer: mesmo depois do fim do mundo, ainda existe espaço para esperança, humor e até um cachorro roubando a cena.
Um apocalipse menor, mas visualmente enorme
Ao contrário do que o nome de Ridley Scott poderia sugerir, The Dog Stars não transforma o Colorado pós-apocalíptico em um gigantesco parque de destruição.
A escala é relativamente íntima.
Hig vive tentando sobreviver ao lado de Bangley, seu parceiro de circunstância, enquanto seu cachorro Jasper completa uma espécie de família improvisada. Entre voos, ruínas, escassez e encontros perigosos, a dupla tenta descobrir se ainda existe algum lugar onde a humanidade possa recomeçar.
Scott aproveita muito bem as paisagens.
Os grandes planos aéreos contrastam com cidades destruídas e espaços abandonados, criando uma sensação constante de beleza misturada à decadência.
É um mundo acabado que, curiosamente, ainda consegue ser bonito.
Hig acredita nas pessoas. Bangley prefere continuar vivo
O coração do filme está na relação entre Hig e Bangley.
Hig, interpretado por Jacob Elordi, insiste em acreditar que a humanidade não morreu junto com o mundo que conheciam. Mesmo depois de perder pessoas importantes, enfrentar violência e ser perseguido por outros sobreviventes, ele continua procurando algum sinal de bondade.
Bangley, vivido por Josh Brolin, pensa exatamente o contrário.
Para ele, o apocalipse apenas retirou a maquiagem da sociedade.
Essa diferença cria uma das melhores dinâmicas do filme porque The Dog Stars não transforma nenhum dos dois em dono da verdade.
Hig precisa de esperança para continuar sendo humano.
Bangley precisa de desconfiança para continuar vivo.
E talvez os dois estejam certos.
Quando o filme desacelera, ele fica melhor
Os melhores momentos de The Dog Stars não são necessariamente os grandes tiroteios ou as sequências de perseguição.
São as pausas.
Uma refeição tranquila. Uma conversa entre dois sobreviventes. Um momento com Jasper. Uma paisagem silenciosa. Pequenas situações em que personagens que deveriam estar apenas tentando sobreviver conseguem, por alguns minutos, simplesmente existir.
É justamente nesses momentos que Ridley Scott encontra a personalidade do filme.
O problema é que a obra nem sempre sabe manter esse equilíbrio.
Em determinados momentos, a narrativa abandona o tom contemplativo e mergulha em uma ação exagerada, quase como se Fallout tivesse invadido o filme por alguns minutos.
Há violência absurda, vilões caricatos e situações que parecem pertencer a outro tipo de história.
Funciona como espetáculo.
Nem sempre funciona como narrativa.
Jacob Elordi encontra um herói diferente
Hig representa uma mudança interessante na carreira de Jacob Elordi.
O ator ficou conhecido por interpretar personagens frequentemente associados a lados mais sombrios, violentos ou moralmente complicados. Aqui, ele segue por outro caminho.
Hig é vulnerável, silencioso e profundamente esperançoso.
E Elordi entende que o personagem funciona melhor quando fala pouco.
Grande parte de sua atuação está nas expressões, nos gestos e na maneira como ele ocupa os espaços.
O ator consegue transmitir o peso do mundo ao redor sem transformar Hig em um protagonista constantemente deprimido.
É uma performance discreta, mas bastante eficiente.
Josh Brolin rouba o filme
Se Elordi conduz a história, Josh Brolin quase rouba o volante.
Bangley poderia facilmente ter se transformado em um estereótipo do velho sobrevivente rabugento que sabe tudo e desconfia de todos.
Brolin evita essa armadilha.
Seu personagem é cínico, engraçado, desconfiado e, principalmente, humano.
A química entre Brolin e Elordi é provavelmente o maior trunfo do filme. A relação entre os dois dá ao roteiro uma força que algumas das tramas paralelas não conseguem alcançar.
É uma amizade construída mais por necessidade do que por escolha, mas que aos poucos ganha uma dimensão genuína.
Margaret Qualley e Guy Pearce ficam subaproveitados
Margaret Qualley e Guy Pearce entram posteriormente como Cima e Pops, acrescentando novas possibilidades à narrativa.
A dupla funciona bem e ajuda a expandir o pequeno universo de sobreviventes apresentado pelo filme.
Mas o roteiro não dá aos dois personagens profundidade suficiente.
Cima, principalmente, acaba envolvida em um romance com Hig que parece precisar de mais tempo para amadurecer.
Não chega a ser completamente artificial, mas algumas cenas importantes parecem ter sido deixadas pelo caminho.
É como se o filme soubesse onde queria chegar, mas tivesse pressa demais para chegar lá.
O mundo acabou, mas a construção de mundo poderia ter sido melhor
Esse é talvez o maior problema de The Dog Stars.
O filme mostra lugares interessantes, mas não explora completamente o que aconteceu com aquele mundo.
Aeroportos abandonados, casas destruídas e cidades em ruínas ajudam a criar atmosfera, mas existe uma sensação constante de que estamos vendo apenas a superfície.
O espectador entende que algo terrível aconteceu.
Só não recebe uma visão tão rica das consequências.
Para uma produção pós-apocalíptica, isso faz diferença.
A história é pequena de propósito, mas algumas informações adicionais poderiam tornar aquele universo muito mais convincente.
Ridley Scott não reinventou o apocalipse. E talvez nem precisasse.
The Dog Stars não é o novo Mad Max. Também não pretende ocupar o espaço de The Last of Us, Fallout ou outras grandes referências do gênero.
E talvez seja justamente aí que esteja sua melhor qualidade.
O filme não está interessado apenas em mostrar como a humanidade pode ser monstruosa quando tudo acaba.
Ele também quer mostrar o que faz algumas pessoas continuarem humanas.
A direção de Scott é segura, os visuais são impressionantes, as cenas de ação funcionam e o elenco consegue compensar algumas limitações do roteiro.
O resultado é irregular, familiar em vários aspectos, mas surpreendentemente agradável.
E existe uma ironia deliciosa nisso tudo: um dos diretores mais associados a mundos sombrios e grandiosos decidiu fazer um filme sobre o fim da civilização que, no fundo, acredita que talvez ainda valha a pena reconstruí-la.
Ridley Scott não reinventou o fim do mundo. Só decidiu, desta vez, não desistir dele.