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“serena joy” parece uma música pop. Até você descobrir por que Olivia Rodrigo escolheu esse nome
Olivia Rodrigo sabe fazer uma música grudar na cabeça.
Mas, desta vez, talvez seja melhor prestar atenção antes de sair cantando.
“serena joy”, seu novo single, chega com sintetizadores retrô, melodia pop e uma sonoridade aparentemente leve. Só que o nome da música esconde uma referência bem mais pesada: Serena Joy Waterford, uma das personagens centrais de O Conto da Aia, de Margaret Atwood.
E não, Olivia não escolheu esse nome simplesmente porque achou bonito.
Serena Joy é uma mulher que ajudou a defender uma estrutura extremamente opressora e acreditou que poderia permanecer protegida por ela.
Não demorou para descobrir que sistemas assim não costumam respeitar seus próprios aliados.
É justamente aí que a música começa a ficar interessante.
Serena Joy nunca foi apenas uma vilã
Para quem conhece apenas a série, Serena Joy pode parecer simplesmente uma das grandes antagonistas de O Conto da Aia.
Mas a personagem é muito mais incômoda do que isso.
Antes de Gilead transformar os Estados Unidos em uma sociedade totalitária, Serena defendia publicamente uma visão extremamente conservadora sobre o papel das mulheres.
Ela ajudou a construir ideologicamente o mundo que viria depois.
Só que existe uma ironia cruel nessa história.
Quando Gilead finalmente surge, Serena também perde boa parte da liberdade que acreditava ter.
Ela continua próxima do poder, mas já não controla o próprio destino.
E essa contradição é justamente o que torna seu nome tão poderoso para uma música de protesto.
O problema de acreditar que a opressão só acontece com “os outros”
Serena acreditava que estava do lado certo da estrutura.
Ela não precisava ser uma Aia.
Não precisava estar na parte mais baixa da hierarquia.
Bastava estar perto dos homens que comandavam tudo.
O problema é que regimes autoritários não funcionam como clubes com carteirinha vitalícia.
Você pode ajudar a construir o sistema.
Pode defendê-lo.
Pode acreditar que suas regras são necessárias.
E ainda assim descobrir que, quando a estrutura decide retirar seus direitos, sua proximidade com o poder talvez não signifique absolutamente nada.
É aqui que “serena joy” deixa de ser apenas uma referência literária.
A personagem passa a funcionar como um aviso.
Olivia Rodrigo não precisou gritar para fazer uma música de protesto
Talvez a escolha mais inteligente da faixa esteja justamente na maneira como ela não parece uma música de protesto tradicional.
Não existe necessidade de transformar tudo em um manifesto sonoro.
A produção é acessível, a melodia é envolvente e a estética tem aquele sabor retrô que combina perfeitamente com o pop de Rodrigo.
Só que, por trás disso, existe uma mensagem muito menos confortável.
A música trabalha a ideia de que ignorar a opressão contra outras pessoas não garante que você ficará protegido quando o sistema decidir mudar de alvo.
Ou, resumindo de uma maneira bem menos elegante:
se você deixa o incêndio começar na casa do vizinho, talvez não demore para alguém bater na sua porta com um fósforo.
E Serena Joy é a prova disso.
É aqui que a referência a O Conto da Aia ganha outra dimensão
O grande mérito da escolha de Olivia Rodrigo é não usar Serena como uma simples referência estética.
Ela poderia ter colocado o nome de qualquer personagem famosa.
Escolheu justamente uma mulher cuja trajetória representa uma das maiores contradições de Gilead.
Serena queria preservar uma determinada ordem social.
Acabou presa dentro dela.
Queria autoridade.
Descobriu que sua autoridade tinha limites.
Queria proteger seu lugar.
Descobriu que o sistema poderia redefinir esse lugar quando quisesse.
Essa é uma mensagem bastante atual para colocar dentro de uma música pop.
E talvez seja por isso que o título seja mais importante do que parece.
O Conto da Aia continua assustador porque não precisa de monstros
Margaret Atwood publicou O Conto da Aia em 1985.
Décadas depois, a história continua funcionando porque seu terror nunca dependeu de criaturas sobrenaturais ou de uma tecnologia impossível.
O horror está nas pessoas.
No controle.
Na retirada gradual de direitos.
Na transformação de determinadas pessoas em ferramentas.
E, principalmente, na capacidade de uma sociedade normalizar coisas absurdas quando elas são apresentadas como necessárias.
É por isso que Gilead continua causando desconforto.
O mundo de Atwood é fictício.
Algumas das ideias que o sustentam, infelizmente, não são.
E existe uma razão para essa música chegar agora
“serena joy” também não surgiu isolada.
A faixa está ligada ao Daisy Chain Fields, festival exclusivamente feminino organizado por Olivia Rodrigo e marcado para 29 de agosto de 2026.
O lançamento também possui uma finalidade beneficente, conectando a música diretamente à proposta do evento.
E isso torna a escolha do nome ainda mais interessante.
Não é simplesmente uma cantora pop fazendo referência a uma série famosa.
É uma artista usando uma personagem associada à repressão das mulheres para colocar a própria música dentro de uma iniciativa voltada justamente para mulheres.
A ironia praticamente escreve a própria legenda.
Uma música que ficou fora do álbum encontrou outro caminho
Outro detalhe curioso é que “serena joy” nasceu durante as sessões do terceiro álbum de Olivia Rodrigo, mas acabou ficando fora do disco.
Em vez de desaparecer em alguma pasta esquecida de estúdio, a faixa ganhou uma nova função.
E talvez seja exatamente por isso que ela pareça tão específica.
Ela não precisa carregar o peso de um álbum inteiro.
Pode existir como uma declaração isolada.
Uma música pop com uma referência literária bastante clara e uma mensagem que não precisa explicar tudo para quem conhece a origem.
O nome Serena Joy funciona como uma armadilha
Essa talvez seja a melhor maneira de entender a música.
Você ouve.
Gosta da melodia.
Decora o refrão.
Depois descobre quem é Serena Joy.
E então a música muda.
Aquela escolha aparentemente curiosa de título passa a carregar toda a história de Gilead.
É quase uma armadilha cultural.
Primeiro vem o pop.
Depois vem Margaret Atwood.
E, quando você percebe, está pensando sobre poder, cumplicidade e liberdade enquanto uma música da Olivia Rodrigo continua tocando na sua cabeça.
Convenhamos: não é uma péssima estratégia.
Serena Joy não é uma homenagem. É um alerta.

É fácil olhar para uma personagem como Serena Joy e pensar apenas em vilões e vítimas.
Mas a força da personagem está justamente na área cinzenta.
Ela ajudou a alimentar uma estrutura que acreditava controlar.
Depois descobriu que também poderia ser esmagada por ela.
E é essa contradição que Olivia Rodrigo parece transformar em mensagem.
A opressão não se torna aceitável porque você acredita que estará do lado privilegiado dela.
Quando direitos podem ser retirados de outras pessoas, a estrutura já está funcionando.
A questão é apenas saber quem será o próximo alvo.
No fim, “serena joy” faz algo que uma boa música de protesto deveria fazer:
Primeiro, faz você ouvir.
Depois, faz você pensar.
E só então percebe que talvez o refrão estivesse avisando alguma coisa.