ALERTA: MATÉRIA COM SPOILERS
Se você achava que Peacemaker era só zoeira, violência exagerada e John Cena dançando de cueca, segura essa: o episódio 6 da 2ª temporada deu uma guinada que deixou os fãs pirando.
Chris Smith (vulgo Peacemaker) leva os 11th Street Kids para o que ele chama de “a melhor dimensão de todas”. Só que, como o próprio título do episódio (“Ignorance Is Chris”) entrega, nosso anti-herói favorito está tão iludido com fama, fortuna e romance que não percebeu as bandeiras vermelhas gigantes piscando nesse outro mundo.
E aqui vem a bomba: essa tal dimensão confirma uma velha teoria dos fãs — e ainda coloca Chris cara a cara com a maior de suas dores de infância, que vem direto dos quadrinhos.
A origem do Pacificador: da Guerra Fria ao multiverso
Criado em 1967 por Joe Gill e Pat Boyette para a Charlton Comics, o Pacificador nasceu como um diplomata pacifista que… bem, largava a gravata e vestia o capacete quando os discursos falhavam.
Entre jetpacks, armas futuristas e inimigos bem “Era de Prata” (tipo homens de lava!), Chris Smith era um produto clássico da Guerra Fria.
Quando a Charlton quebrou, a DC comprou os direitos e jogou o personagem dentro do famoso Crise nas Infinitas Terras (1985). A partir daí, tudo mudou. Em 1986, ele já aparecia em Vigilante #36 como um psicopata que acreditava que as almas de suas vítimas viviam dentro do capacete (!).
Dois anos depois, veio a série solo: Chris, vivendo na Suíça, cheio de armas high-tech… mas atormentado pela voz fantasmagórica do pai nazista, Wolfgang Schmidt. E não é qualquer pai fantasma: é um espírito de uniforme da SS, de chicote na mão, lembrando constantemente o filho do quão “fraco” ele era. Trauma nível hard.
James Gunn e a atualização do trauma
Na TV, James Gunn trocou o nazismo de Wolfgang pelo supremacismo branco de Auggie Smith (Robert Patrick). Mas a essência é a mesma: um pai monstruoso, que volta para atormentar Chris mesmo depois de morto.
E agora, na 2ª temporada, Gunn resolveu colocar o dedo ainda mais fundo na ferida: Chris visita a Terra-X, aquele universo paralelo onde a Alemanha nazista venceu a Segunda Guerra. É o cenário perfeito para confrontar de vez esse legado familiar podre.
O fantasma de Auggie não larga do pé
No final da 1ª temporada, já vimos o fantasma de Auggie surgir para assombrar Chris. E adivinha? Ele não pretende ir embora.
Nos quadrinhos, o pai dele era uma presença constante, sempre empurrando Chris para a violência — e a série está seguindo exatamente esse caminho. No episódio 3 da nova temporada, por exemplo, bastou Chris se sentir “acolhido” pelo pai para sair matando sem dó os Filhos da Liberdade, enterrando todo o discurso de evolução que vinha tentando emplacar.
É o velho dilema: Peacemaker quer ser melhor, mas sempre acaba sugado para a sombra do pai.
O que isso significa para o futuro?
Se o paralelo com os quadrinhos se mantiver, Chris ainda vai passar muito tempo lutando contra essa influência. A Terra-X, com toda sua tentação de poder e validação, é quase uma armadilha perfeita.
E no meio disso tudo, Amanda Waller segue usando ele como ferramenta descartável, porque — convenhamos — ninguém mata tão bem quanto o Pacificador.
Mas no fundo, o que Gunn mostra é que Chris não quer ser só isso. Ele sonha em ser mais do que o filho de um monstro, mais do que uma máquina de matar. E é justamente essa contradição que faz dele um dos personagens mais interessantes da DC hoje.
Em resumo: Peacemaker conseguiu equilibrar piada, pancadaria e uma carga dramática pesada, puxando o personagem direto para suas raízes mais sombrias nos quadrinhos. James Gunn não tá só reciclando HQ velha — ele tá atualizando um trauma geracional e usando isso para dar peso real a um cara que usa um capacete brilhante em forma de privada.