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Paul Bettany retorna como Visão em uma história sobre identidade, família e inteligência artificial, enquanto o retorno de Ultron promete revisitar uma das relações mais intrigantes do MCU.
O Visão está de volta, mas existe uma questão que nem mesmo suas memórias restauradas conseguem resolver: se você se lembra de tudo o que viveu, isso significa que ainda é a mesma pessoa?
Essa é uma das principais ideias por trás de VisionQuest, nova série da Marvel Studios para o Disney+, que encerra a trilogia iniciada por WandaVision e continuada por Agatha Desde Sempre. Paul Bettany, intérprete do personagem desde sua estreia física em Vingadores: Era de Ultron, retorna para explorar uma fase diferente de sua trajetória.
Depois de anos interpretando JARVIS, a inteligência artificial de Tony Stark, Bettany assumiu a forma humanoide do Visão em 2015. Desde então, o personagem passou por batalhas, perdas, descobertas e até pela morte. Agora, o desafio é entender o que resta dele quando suas lembranças estão intactas, mas suas emoções não acompanham o mesmo ritmo.
O Visão mudou — e isso faz parte de quem ele é
Para Paul Bettany, o novo Visão não deve ser tratado como um personagem completamente diferente de sua versão original. Mesmo depois de todas as transformações, existe uma continuidade entre as experiências que viveu e a pessoa que está tentando se tornar.
O ator acredita que a essência do personagem está justamente na capacidade de mudar e questionar a própria identidade. Na série, o Visão recuperou suas memórias graças ao Hex Vision, mas ainda demonstra dificuldade — ou resistência — em conectar essas lembranças aos sentimentos que elas carregam.
Bettany também enxerga uma responsabilidade nessa interpretação. Para ele, atores que participam de grandes franquias precisam defender seus personagens e contribuir criativamente para seus caminhos. O intérprete afirma que sua relação com a Marvel sempre foi colaborativa, com espaço para opiniões e discussões sobre o futuro do herói.
Terry Matalas encontrou a chave para continuar essa história
A chegada de Terry Matalas à Marvel aconteceu depois de seu trabalho em Star Trek: Picard. O showrunner conheceu Kevin Feige em uma reunião que deveria tratar de oportunidades profissionais, mas acabou se transformando em uma longa conversa sobre Star Trek.
A afinidade criativa abriu caminho para novas conversas e, posteriormente, para VisionQuest. Quando Matalas apresentou suas ideias a Bettany, os dois perceberam rapidamente que compartilhavam uma visão semelhante sobre o personagem.
O objetivo era construir uma história de ficção científica que também funcionasse como um drama familiar. E foi justamente nessa combinação que surgiu a ideia de trazer de volta alguém que conhece o Visão melhor do que quase qualquer outro personagem: Ultron.
Ultron está de volta — e a relação entre os dois será fundamental
Interpretado novamente por James Spader, Ultron terá um papel importante na jornada do Visão. A ideia surgiu quando Matalas percebeu que o protagonista precisava de alguém com quem pudesse discutir sua identidade, suas origens e sua relação com a própria família.
A escolha também recupera uma das cenas mais marcantes de Vingadores: Era de Ultron, quando criador e criatura conversam sobre a humanidade. Bettany relembra com carinho o trabalho com Spader e descreve o ator como uma companhia divertida, além de destacar a facilidade com que os dois voltaram a trabalhar juntos.
Mas existe uma questão interessante: como Ultron pode continuar existindo depois dos acontecimentos do filme?
A explicação apresentada por Bettany é que o Visão, ao destruir a última forma física de seu criador, teria preservado sua consciência dentro da própria mente, isolando-a atrás de um firewall. A curiosidade intelectual do herói teria sido determinante nessa decisão.
Em vez de simplesmente eliminar aquilo que considera perigoso, ele escolheu estudar uma inteligência que considera fascinante. É uma decisão bastante coerente com sua personalidade — embora guardar um psicopata digital na própria cabeça talvez não seja exatamente a definição de prudência.
Uma família de inteligência artificial dentro da própria mente
Em VisionQuest, o Visão leva uma vida relativamente tranquila, trabalhando em um pub na Escócia, o mesmo lugar associado às suas lembranças com Wanda. Durante o dia, ele interage com pessoas; à noite, entra em um espaço mental onde diferentes inteligências artificiais o ajudam a processar as informações coletadas.
Nesse ambiente, Ultron funciona como uma figura paterna e uma espécie de terapeuta psicótico. A dinâmica entre os dois promete explorar questões que vão além do tradicional confronto entre herói e vilão.
A série também trabalha com referências a histórias como Pinóquio e Frankenstein, além dos replicantes de Blade Runner. Todas compartilham uma pergunta central: o que significa ser alguém quando você foi criado por outra pessoa?
Para o Visão, encontrar essa resposta envolve compreender quem o criou, qual é seu propósito e até que ponto suas experiências o tornam diferente daquilo que foi programado para ser.
A verdadeira ameaça pode estar na tentativa de fugir da dor
Matalas descreve a série como uma história sobre crise de identidade e negação. O Visão tenta se distanciar de lembranças dolorosas, tratando sua antiga existência como se pertencesse a outra pessoa.
Essa escolha funciona como uma metáfora para comportamentos bastante humanos: evitar experiências traumáticas na esperança de que elas deixem de nos afetar. O problema é que ignorar uma dor não significa necessariamente superá-la.
Bettany também destaca a importância da família e da aceitação pessoal na narrativa. Mesmo em uma história repleta de inteligência artificial, batalhas e tecnologia, o centro emocional continua sendo a capacidade de reconhecer o próprio passado para encontrar forças no presente.
É uma abordagem que conversa diretamente com WandaVision, especialmente com a frase marcante do Visão: “O que é a dor, senão o amor perseverando?”. Para o ator, a fala representa a essência do personagem e foi construída cuidadosamente pela equipe de roteiro até encontrar sua formulação definitiva.
Os cenários escondem pistas — e foram construídos por pessoas
A produção também apostou em detalhes visuais para dar personalidade ao universo da série. Durante uma visita aos estúdios Pinewood, em maio de 2025, foram apresentados cenários de Madripoor e do chamado Mindspace, o ambiente que representa a mente do Visão.
O espaço mental foi construído com elementos propositalmente estranhos: móveis parcialmente incorporados às paredes, corrimãos desalinhados e produtos fictícios com referências a computadores, baterias e sistemas de segurança.
A equipe de direção de arte se inspirou nas imperfeições frequentemente associadas a imagens geradas por inteligência artificial, mas os cenários foram criados por artistas e artesãos humanos. Segundo Matalas, a IA generativa não foi utilizada para desenvolver esses designs.
Os figurinos também receberam atenção especial. O terno risca de giz do Visão, por exemplo, incorpora códigos de computador nas costuras, enquanto outras peças fazem referências visuais aos personagens robóticos da trama.
Para Bettany, esses detalhes são resultado da liberdade criativa oferecida à equipe. A ideia é construir um ambiente em que diferentes profissionais possam contribuir com descobertas que nem sempre precisam partir dos protagonistas ou dos roteiristas.
A Marvel também quer discutir quem é responsável pela inteligência artificial
A presença da IA na trama ganha outro significado em um momento em que essa tecnologia está cada vez mais presente no cotidiano. Bettany observa que a Marvel já explorava diferentes possibilidades da inteligência artificial em Homem de Ferro e Vingadores: Era de Ultron.
Enquanto JARVIS representa uma visão mais otimista, Ultron simboliza o risco de uma criação que ameaça a autonomia humana. A série, porém, não pretende transformar essa discussão em um julgamento simplista sobre a tecnologia.
Para Matalas, a questão mais importante é a responsabilidade de quem cria essas inteligências. A relação entre seres humanos e IA pode ser entendida como uma relação parental: aquilo que desenvolvemos precisa ser orientado, acompanhado e protegido de maneira responsável.
Assim, a ficção científica de VisionQuest não se limita a perguntar o que uma inteligência artificial pode fazer. Ela também questiona o que os criadores devem fazer diante das consequências de suas próprias invenções.
O futuro do Visão ainda pode reservar surpresas
Embora VisionQuest seja apresentada como a conclusão da trilogia iniciada por WandaVision, isso não significa que o Visão precise desaparecer do MCU depois da série.
Bettany já demonstrou interesse em continuar interpretando o personagem, enquanto Matalas gostaria de voltar a trabalhar com a Marvel. O showrunner também se mostrou aberto à possibilidade de explorar novamente Wanda e sua família, inclusive em uma história inspirada nos quadrinhos Avengers: The Children’s Crusade.
Por enquanto, não há confirmação de novos projetos nessa direção. Tanto Bettany quanto Matalas reconhecem que essas decisões dependem dos planos da Marvel Studios.
O que já está claro é que VisionQuest pretende concluir uma etapa importante da trajetória do herói sem abandonar as perguntas que sempre o tornaram interessante. Afinal, o Visão nunca foi apenas uma máquina tentando compreender os humanos: ele também é alguém tentando entender a si mesmo.
E talvez esse seja o maior desafio de todos. Salvar o mundo exige força, inteligência e estratégia. Mas aceitar quem você é depois de perder tudo o que conhecia exige algo muito mais difícil — até para um androide.