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Star Trek: Strange New Worlds transforma a Enterprise em um caos de marionetes — e o final divide a tripulação

A quarta temporada de Star Trek: Strange New Worlds decidiu fazer algo que poucas séries teriam coragem de tentar: transformar praticamente toda a tripulação da Enterprise em marionetes.

E o mais estranho é que funciona.

No episódio 5, “Acidente com o Teletransportador de Nível Cinco”, a série mergulha de cabeça no universo dos fantoches, com direito à participação da Jim Henson Creature Shop. O resultado é uma mistura improvável de ficção científica, comédia absurda e aquele espírito clássico de Star Trek de resolver problemas impossíveis usando lógica, improviso e uma quantidade questionável de bom senso.

Mas existe um detalhe.

Tudo aquilo era um sonho.

E talvez essa tenha sido justamente a escolha mais controversa do episódio.

A Enterprise virou um playground de marionetes

A história começa quando um acidente envolvendo o teletransportador transforma a tripulação da Enterprise em marionetes.

Spock é a única exceção.

A situação fica ainda pior quando piratas Orion assumem o controle da nave e colocam o oficial vulcano em cativeiro.

Só que os invasores cometem um erro básico: subestimam completamente as vantagens de enfrentar uma tripulação que agora é feita de bonecos.

Pike percebe que não precisa respirar.

Pelia descobre que ser cortada ao meio não é exatamente um problema quando você é uma marionete.

E, de repente, aquilo que parecia ser apenas uma piada visual vira uma arma.

O caos é a verdadeira arma da Enterprise

É aqui que o episódio mostra por que a ideia das marionetes poderia facilmente ter dado errado, mas acaba funcionando.

A tripulação começa a usar as próprias limitações dos bonecos contra os Orions.

Pike lidera o ataque utilizando justamente aquilo que os inimigos consideram ridículo. Os piratas esperam encontrar uma tripulação vulnerável, mas encontram personagens que simplesmente não obedecem às regras normais da biologia.

O plano culmina quando Spock percebe que pode desligar o suporte de vida da ponte e simplesmente esperar os Orions perderem a consciência.

O detalhe mais irônico?

Spock também não consegue respirar.

Porque, aparentemente, até uma estratégia perfeitamente lógica precisa de um pequeno detalhe que ninguém pensou direito.

Então vem a grande virada: tudo estava na cabeça de Spock

Depois de toda a loucura, Spock acorda.

T’Pring está ao lado dele.

A explicação é simples: o acidente com o teletransportador afetou apenas Spock, e toda a aventura com marionetes aconteceu dentro de sua mente.

O estranho sonho, porém, não surge do nada.

Spock está emocionalmente sobrecarregado depois dos acontecimentos envolvendo a USS Griffin e também acaba de passar por mais uma decepção amorosa.

La’an terminou o relacionamento entre os dois antes do início da sequência do sonho.

E isso coloca Spock em uma posição bastante interessante.

Durante toda a série, ele vem tentando entender sua humanidade. Agora, depois de trauma, perdas e relacionamentos fracassados, parece cada vez mais tentado a voltar para aquilo que conhece melhor: a lógica vulcana.

As marionetes revelam o que Spock realmente pensa da Enterprise

O detalhe mais interessante do sonho talvez seja justamente o fato de Spock ser o único que continua humano.

Todo mundo ao redor dele virou marionete.

Isso pode ser interpretado como uma representação do sentimento de isolamento do personagem.

A Enterprise é constantemente caótica. Seus colegas dependem dele, os problemas nunca param e Spock precisa equilibrar sua natureza vulcana com emoções que ainda está tentando compreender.

No sonho, ele finalmente encontra uma tripulação que literalmente virou um caos ambulante.

E talvez exista uma mensagem simples escondida nisso:

Spock está cansado.

Até T’Pring aparece no sonho como uma espécie de âncora para ele, reforçando a ideia de que a lógica continua sendo seu porto seguro.

É um pequeno passo em direção ao Spock que os fãs já conhecem da série clássica.

E La’an também ganha um momento importante

A separação entre Spock e La’an é tratada de maneira relativamente tranquila.

Não existe uma grande explosão emocional.

La’an simplesmente reconhece que os dois já estavam seguindo caminhos diferentes havia algum tempo.

Para Spock, entretanto, isso representa mais uma perda.

T’Pring terminou com ele.

Christine Chapel terminou com ele.

Agora La’an também.

Três relacionamentos em quatro temporadas.

Talvez o universo esteja tentando dizer alguma coisa ao vulcano.

E, considerando o histórico amoroso de Spock, talvez a mensagem seja: “fica na lógica mesmo”.

La’an também atravessa seus próprios conflitos na quarta temporada, especialmente diante do medo relacionado ao seu DNA aprimorado.

Curiosamente, no sonho de Spock, ela parece até aliviada por ser uma marionete.

Afinal, pelo menos naquele estado, não precisa temer se transformar naquilo que mais teme.

O problema é que o episódio poderia ter sido ainda mais corajoso

Aqui está a grande questão.

A ideia das marionetes era boa demais para terminar sendo apenas um sonho.

O episódio já tinha criado regras próprias, explorado as limitações físicas dos bonecos e encontrado maneiras inteligentes de usar tudo isso na narrativa.

Por que não assumir que realmente aconteceu?

Star Trek já fez coisas muito mais absurdas.

A franquia atravessou universos paralelos, viagens no tempo, alienígenas bizarros, paradoxos e situações que desafiam completamente a lógica.

Uma tripulação transformada em marionetes deveria ser apenas mais uma terça-feira na Enterprise.

Mas a série escolheu voltar atrás.

O “era tudo um sonho” enfraquece a própria ousadia

O problema não é o sonho existir.

O problema é que ele funciona como uma espécie de botão de emergência narrativo.

Tudo pode acontecer porque, no fim, nada aconteceu.

A Enterprise foi tomada?

Sonho.

A tripulação virou marionete?

Sonho.

Pelia foi cortada ao meio?

Sonho.

Spock enfrentou piratas Orion enquanto tentava entender seus próprios sentimentos?

Também era sonho.

E isso diminui um pouco o impacto da experiência.

A melhor versão desse episódio seria aquela em que a série tivesse coragem de dizer:

“Sim. Isso aconteceu.”

E seguir em frente.

Porque esse é justamente o tipo de loucura que combina com Star Trek.

No fim, o episódio é estranho, divertido e muito mais profundo do que parece

“Acidente com o Teletransportador de Nível Cinco” poderia ter sido apenas um episódio engraçadinho envolvendo bonecos.

Mas por trás da estética de Muppets existe uma história sobre Spock.

Sobre trauma.

Sobre solidão.

Sobre relacionamentos que não deram certo.

E principalmente sobre um personagem que talvez esteja começando a perceber que não precisa continuar tentando ser tudo para todos.

As marionetes são absurdas.

O episódio também.

Mas talvez seja justamente esse o ponto.

Porque, no universo de Star Trek, às vezes a coisa mais estranha da galáxia é também a maneira mais eficiente de contar uma história sobre aquilo que existe dentro de um personagem.

O único problema é que, quando a Enterprise finalmente abraça o caos, a série decide acordar Spock.

E talvez o verdadeiro desperdício tenha sido esse.

A quarta temporada de Star Trek: Strange New Worlds continua com novos episódios às quintas-feiras no Paramount+.

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Autor

Rafaela Yamazato

rafayamazato@laranjacast.com.br

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