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Ryan Reynolds já virou praticamente um gênero cinematográfico próprio.
Coloque o ator ao lado de alguém completamente incompatível com ele e, em algum momento, teremos uma dupla improvável, provocações, pancadaria e alguém questionando seriamente as próprias escolhas de vida.
Mas Mayday promete brincar justamente com essa fórmula.
Na nova comédia de ação da Apple, Reynolds interpreta Troy, um piloto da Marinha dos Estados Unidos que acaba preso em território soviético durante uma missão secreta em plena Guerra Fria. Para sobreviver, ele precisa fazer uma aliança nada confortável com Nikolai, um ex-agente da KGB interpretado por Kenneth Branagh.
E existe um pequeno detalhe que torna essa parceria ainda mais interessante: Ryan Reynolds não é exatamente o sujeito engraçadinho da dupla.
Dessa vez, quem assume boa parte do caos é Branagh.
Esqueça o herói americano perfeito
Mayday parte de uma imagem que Hollywood conhece muito bem: o piloto americano dos anos 1980, patriota, confiante e praticamente convencido de que o mundo inteiro funciona melhor quando os Estados Unidos estão no comando.
O filme decidiu colocar essa ideia na mesa e perguntar: e se esse sujeito estiver completamente errado?
A inspiração veio, em parte, do impacto de Top Gun: Maverick. Jonathan Goldstein e John Francis Daley, responsáveis pela direção, enxergaram naquele imaginário do piloto americano uma oportunidade para desmontar alguns clichês que o cinema popularizou durante décadas.
Só que a intenção não era transformar Mayday em uma palestra política com aviões de caça.
A graça está justamente em fazer o público perceber as contradições enquanto acompanha uma aventura de ação.
Troy enxerga o mundo de maneira extremamente simples: Estados Unidos de um lado, Rússia do outro. Certo contra errado. Herói contra inimigo.
Nikolai aparece para destruir essa lógica.
O ex-agente soviético é apaixonado pela cultura americana, conhece profundamente o funcionamento da propaganda e carrega uma visão muito mais complexa sobre os dois países.
Em outras palavras: o americano precisa aprender a enxergar um russo como uma pessoa antes de enxergá-lo como um inimigo.
E o russo precisa descobrir que a América que ele idealizou talvez nunca tenha existido daquela maneira.
Ryan Reynolds é a donzela em perigo?
Aqui está uma das maiores brincadeiras de Mayday.
Quem está acostumado a ver Reynolds comandando a situação provavelmente vai estranhar Troy.
O personagem é mais ingênuo, sério e vulnerável do que o habitual. Enquanto isso, Kenneth Branagh transforma Nikolai em uma figura imprevisível, excêntrica e extremamente perigosa.
A dinâmica inverte completamente aquilo que normalmente esperamos de um filme estrelado por Reynolds.
Daley destacou justamente essa mudança: Reynolds assume o papel de homem sério enquanto Branagh funciona como o alívio cômico.
E, aparentemente, Reynolds adorou a ideia.
O próprio ator brincou que, apesar de toda a experiência acumulada em filmes de ação, em Mayday ele acabou ocupando uma posição muito próxima da clássica “donzela em perigo”.
É uma inversão simples, mas bastante eficiente para impedir que o filme pareça apenas mais uma variação de Deadpool com outro uniforme.
Kenneth Branagh descobriu um novo tipo de agente da KGB
Nikolai poderia facilmente ter virado aquele velho clichê do russo ameaçador, carrancudo e permanentemente interessado em destruir o Ocidente.
Mas Branagh decidiu seguir por outro caminho.
O personagem mistura violência, vulnerabilidade, excentricidade e uma paixão quase infantil pela cultura americana.
É uma combinação estranha.
E justamente por isso funciona.
O ator também levou bastante a sério a construção do passado de Nikolai. Ele trabalhou detalhes que sequer necessariamente aparecem no filme, criando histórias para o personagem e imaginando sua relação com outros integrantes da trama.
Até um mapa fazia parte da preparação.
Branagh queria compreender exatamente onde Nikolai estava, qual era a distância até Moscou, por que ele havia escolhido aquele lugar para viver e o que poderia acontecer caso a KGB voltasse a procurá-lo.
O resultado é um personagem que poderia facilmente protagonizar um thriller de espionagem muito mais sombrio.
Só que colocaram esse homem ao lado de Ryan Reynolds.
Boa decisão.
A pancadaria também conta a história
Outro diferencial de Mayday está na maneira como a ação foi construída.
As lutas não servem apenas para preencher espaço entre uma piada e outra. Segundo Branagh, elas ajudam a revelar quem são os personagens.
A maneira como alguém luta diz muito sobre sua personalidade, sua experiência e até sobre quanto valor dá à própria vida.
No caso de Nikolai, isso significa mostrar um homem que pode passar da gentileza absoluta para uma violência extremamente eficiente em questão de segundos.
E Branagh participou ativamente desse processo.
O ator aproveitou sua experiência teatral para tratar as cenas de luta quase como uma coreografia, só que muito mais brutal.
Ele descreveu a experiência como “deliciosamente dolorosa”.
Um jeito bastante elegante de dizer: aparentemente, ninguém saiu completamente inteiro dessa filmagem.
A produção colocou um míssil de verdade no meio da confusão
Se existe uma coisa que Mayday aparentemente não fez foi economizar na escala.
Uma das sequências exigiu que a produção colocasse um enorme lançador de mísseis balísticos em cena.
A ideia original era adaptar um caminhão de bombeiros gigante.
No fim, conseguiram o veículo real.
E ele não era exatamente um objeto discreto.
O equipamento soltava fumaça, atravessava espaços públicos e aparecia destruindo carros enquanto a equipe torcia para que nada desse errado.
Curiosamente, o lançador aparentemente foi um parceiro de cena mais complicado do que Reynolds e Branagh.
E isso já diz bastante sobre o nível de ambição da produção.
A cena final quase virou uma história de bastidores

Para a sequência final, a equipe construiu uma cabine de avião praticamente em tamanho real sobre uma estrutura giratória.
A ideia era permitir que os personagens lutassem enquanto a gravidade deixava de colaborar.
Só que houve um pequeno problema durante os testes.
Um dublê estava sentado em um assento que não estava devidamente preso quando simplesmente caiu junto com ele.
Felizmente, ninguém se machucou.
Mas existe vídeo do momento.
Porque aparentemente Hollywood também precisa de seus próprios bloopers de engenharia.
As cenas de voo dos F-18 foram filmadas na França meses antes das filmagens principais, enquanto outras sequências foram realizadas em estúdio, incluindo trabalhos com gimbal em Montreal.
Os diretores também utilizaram câmeras compactas e diferentes técnicas de captura para conseguir enquadramentos mais próximos e incomuns.
A intenção era experimentar sem transformar a câmera em protagonista.
O verdadeiro desafio foi filmar Mayday
Por trás da aparente diversão, a produção enfrentou um problema gigantesco: Ryan Reynolds.
Não porque o ator tenha sido difícil.
Muito pelo contrário.
O problema era a agenda.
Mayday foi produzido antes da conclusão de Deadpool & Wolverine, enquanto a paralisação do SAG-AFTRA complicava ainda mais o calendário.
Reynolds estava envolvido em diferentes frentes de trabalho e chegou a participar da edição do filme da Marvel remotamente durante a noite.
Além de estrelar Mayday, sua produtora, Maximum Effort, também esteve envolvida no projeto.
Ou seja, aparentemente Ryan Reynolds decidiu que trabalhar em apenas um filme ao mesmo tempo seria fácil demais.
E a química com Kenneth Branagh?
Aqui está provavelmente o maior trunfo do filme.
Reynolds não esconde a admiração por Branagh.
Segundo o ator, trabalhar com alguém tão experiente não tornou o processo mais complicado. Aconteceu justamente o contrário.
A experiência de Branagh permitiu que os dois encontrassem rapidamente a dinâmica dos personagens.
E essa química parece ter sido essencial para o filme.
Porque uma comédia de dupla pode sobreviver a muita coisa.
Mas não sobrevive se os protagonistas não funcionarem juntos.
No caso de Mayday, a proposta é colocar dois homens de culturas completamente diferentes, com visões de mundo opostas, presos na pior situação possível.
Se a dupla funcionar, a Guerra Fria pode virar apenas o cenário para uma amizade bastante improvável.
Mayday 2? A porta está aberta
Por enquanto, ninguém está anunciando uma sequência.
Goldstein e Daley afirmam que não chegaram a discutir oficialmente Mayday 2. E existe uma razão bastante simples: presumir que todo filme terá continuação antes mesmo de o público assistir ao primeiro pode ser uma maneira eficiente de criar expectativas que ninguém pediu.
Ainda assim, o final deixa espaço para novas aventuras.
E existe uma possibilidade especialmente divertida: inverter novamente os papéis.
Depois de Troy passar boa parte da história preso em território soviético, por que não levar Nikolai para os Estados Unidos?
O ex-agente da KGB apaixonado pela cultura americana finalmente conheceria o país que passou tanto tempo idealizando.
E provavelmente descobriria que a realidade é muito mais caótica.
Kenneth Branagh já deixou claro que voltaria se a oportunidade aparecesse.
Ryan Reynolds, por sua vez, parece disposto a fazer praticamente qualquer coisa para trabalhar novamente com o ator.
Até carregar saco de areia no set.
Isso talvez seja a declaração mais Reynolds possível para encerrar uma entrevista.
O que esperar de Mayday?
Mayday parece querer usar a fórmula clássica da comédia de ação para fazer algo um pouco diferente.
Não apenas colocar dois sujeitos incompatíveis juntos, mas questionar as imagens que o próprio cinema criou sobre eles.
O americano não é exatamente o herói perfeito.
O russo não é exatamente o vilão.
E Ryan Reynolds não precisa necessariamente ser Ryan Reynolds o tempo inteiro.
Talvez essa seja justamente a maior surpresa.
Em vez de mais uma comédia construída em torno de um protagonista que faz piada enquanto todo mundo tenta acompanhá-lo, Mayday aposta na inversão.
E coloca Kenneth Branagh para mostrar que um ex-agente da KGB pode ser simultaneamente perigoso, sentimental, excêntrico e completamente apaixonado pela América.
Agora resta descobrir se essa mistura consegue transformar uma velha fórmula de Hollywood em algo realmente novo.
Mayday estreia na Apple TV em 4 de setembro de 2026.