Poucos atores conseguiram marcar um personagem de forma tão definitiva quanto Hugh Jackman fez com Wolverine. Por isso, é curioso perceber que seu novo filme parece caminhar exatamente pelas mesmas cicatrizes emocionais que transformaram Logan em um clássico moderno dos filmes de super-heróis.
Mas isso não significa falta de criatividade. Pelo contrário.
A Morte de Robin Hood usa a velha lenda do arqueiro mais famoso da cultura pop para contar uma história sobre culpa, arrependimento e a impossibilidade de apagar os próprios pecados. E, ao fazer isso, acaba ecoando quase todos os temas que tornaram Logan tão memorável.
Um herói que já não acredita na própria lenda
Esqueça o Robin Hood alegre, cercado pelos Homens Alegres e roubando dos ricos para ajudar os pobres.
Nesta nova versão dirigida por Michael Sarnoski, o personagem surge décadas depois de seus dias de glória. Velho, cansado e emocionalmente destruído, ele encara um passado marcado por violência e mortes que jamais poderiam caber nas histórias romantizadas contadas ao longo dos anos.
Essa desconstrução lembra imediatamente o tratamento dado a Wolverine em Logan.
Assim como aconteceu com o mutante da Marvel, o Robin Hood de Jackman rejeita completamente a imagem heroica construída ao seu redor. As lendas podem falar sobre bravura, mas ele enxerga apenas sangue, escolhas erradas e vidas destruídas.
É uma abordagem que troca o mito pelo homem — e um homem profundamente quebrado.
Hugh Jackman parece confortável interpretando heróis no fim da linha
Existe um padrão interessante na carreira recente do ator.
Em vez de interpretar heróis invencíveis, Jackman parece cada vez mais interessado em personagens que carregam o peso das próprias decisões.
Em Logan, o Wolverine já não era o guerreiro praticamente imortal conhecido pelos fãs. Era alguém cansado, amargurado e convencido de que havia fracassado.
Robin Hood segue exatamente essa mesma direção.
Ambos vivem isolados emocionalmente, carregam culpa pelos mortos que deixaram para trás e passam boa parte da história acreditando que não existe mais espaço para redenção.
A figura paterna improvável
Outra semelhança chama atenção.
Nos dois filmes, a transformação do protagonista acontece graças ao vínculo criado com uma jovem garota.
Em Logan, Laura obriga Wolverine a voltar a enxergar algum significado em sua existência.
Já em A Morte de Robin Hood, esse papel fica com Margaret, filha de João Pequeno. Aos poucos, Robin abandona parte de sua frieza e encontra nela uma oportunidade de fazer algo que jamais conseguiu durante toda a vida: proteger alguém em vez de destruir.
Não é exatamente uma relação de pai e filha desde o início.
É uma conexão construída aos poucos, baseada em confiança, aprendizado e, principalmente, na tentativa de impedir que a próxima geração repita os mesmos erros.
Dois finais diferentes… com a mesma essência
Os desfechos também caminham lado a lado.
Em Logan, Wolverine entrega a própria vida para garantir que Laura e as demais crianças tenham um futuro.
Já Robin Hood chega à conclusão de que sua própria existência alimenta um ciclo interminável de violência. Seu sacrifício não acontece apenas para salvar pessoas específicas, mas para impedir que o ódio continue sendo passado de geração em geração.
Antes de morrerem, ambos deixam praticamente a mesma mensagem para a jovem que aprenderam a amar: não siga o mesmo caminho.
É um encerramento que transforma a morte dos personagens em um último ato de esperança.
Mais do que uma coincidência
As semelhanças entre os dois filmes vão muito além de Hugh Jackman estar no papel principal.
Os dois trabalham com heróis envelhecidos, desmontam suas versões idealizadas, exploram arrependimento, violência, legado e encerram suas jornadas através do sacrifício.
Isso não faz de A Morte de Robin Hood uma simples cópia de Logan. Em vez disso, mostra como Michael Sarnoski utiliza uma estrutura semelhante para discutir outro personagem clássico, trocando o romantismo da lenda medieval por uma reflexão amarga sobre culpa e consequências.
Curiosamente, quase uma década depois de emocionar o público como Wolverine, Hugh Jackman volta a interpretar um homem que precisa enfrentar o peso de toda uma vida antes de finalmente encontrar paz. Se Logan foi a despedida definitiva de um mutante, A Morte de Robin Hood parece seguir o mesmo espírito para desconstruir outro herói que, durante séculos, foi tratado como uma lenda intocável.