Depois de mais de 50 anos sonhando com isso, Guillermo del Toro finalmente conseguiu: seu Frankenstein está vivo — e, como tudo que o diretor toca, o resultado é tão gótico quanto grandioso.
Desde 1971, quando ainda era uma criança fascinada por Boris Karloff no clássico de 1931, Del Toro vem alimentando essa obsessão. Agora, ele transforma o romance de Mary Shelley, de 1818, em um espetáculo visual e emocional — parte conto de fadas, parte pesadelo barroco.
A história começa em meio ao gelo do Ártico, com um navio encalhado e um cientista em fuga. Victor Frankenstein (Oscar Isaac) é perseguido até o fim do mundo pela sua criação, o monstro (Jacob Elordi) — uma criatura feita de retalhos humanos, rejeitada e movida pela vingança.
A partir daí, o filme reconstrói o passado de Victor: a infância marcada por um pai tirano (Charles Dance), a dor da perda da mãe (Mia Goth) e a obsessão em desafiar a morte. Quando ele finalmente consegue dar vida a um cadáver, o resultado é tão trágico quanto inevitável.
Mas Del Toro não se contenta em apenas refazer o clássico. Ele mexe nas costuras do mito:
- Adiciona novos personagens, como o misterioso Harlander (Christoph Waltz);
- Dá à Elizabeth (também Mia Goth) um papel muito mais ativo — em vez de temer o monstro, ela o acolhe e o ensina;
- E, claro, insere sua marca registrada: o toque de catolicismo, culpa e redenção que permeia toda sua filmografia.
No fundo, o diretor transforma Victor em um artista — e seu monstro, em uma obra torturada. O resultado é uma reflexão sobre criação, obsessão e perdão, onde até o criador precisa ser perdoado.
Visualmente, o filme é um banquete. O design de produção é de cair o queixo, a fotografia é um quadro vivo (ou morto-vivo, dependendo do ponto de vista), e a trilha sonora tem alma de tragédia romântica. Del Toro mistura gêneros com a mesma ousadia com que seu cientista mistura corpos: terror corporal, drama gótico e fantasia sombria, tudo costurado com precisão cirúrgica.
É um filme longo (duas horas e meia de pura intensidade), mas cada minuto pulsa com o coração monstruoso — e apaixonado — do seu criador.
Ah, e um aviso: se você achou o Frankenstein de Andy Warhol sensual, espere até ver Jacob Elordi coberto de cicatrizes e sofrimento.
Guillermo del Toro criou o Frankenstein que sempre quis — e talvez o que sempre precisávamos.
Um filme sobre monstros, sim, mas também sobre humanidade. E, claro, com muito estilo gótico e ossos rangendo ao fundo.